A comunidade evangélica tem recebido da prefeita Carmen Zanotto a atenção institucional que merece. Não à toa, mais de 30% da Câmara de Vereadores de Lages é composta por representantes desse segmento. Não dá para ignorar o recado que a sociedade dá através das urnas.
No entanto, na política e na igreja (ou Church) canja de galinha e prudência — esta última, uma das primeiras premissas da vida cristã — não fazem mal a ninguém; por óbvio, muito menos a um cristão.
Digo isso porque não me parece inteligente (ou sábio) utilizar uma concessão pública ou, pior ainda, a imagem de uma representante do poder público, como no caso da prefeita Carmen Zanotto, para associá-la a um evento que gerou polêmica e descontentamento em parte da coletividade — no caso, à vizinhança do estádio. Isso pode, nas próximas ocasiões, levar a um esticamento da corda e resultar em maior cautela por parte do poder público, ou até mesmo na diminuição do apoio concedido.
Muito antes de se buscar qualquer argumento para justificar a realização do evento — no horário em que foi feito, da forma como foi conduzido e, principalmente, para quem foi direcionado —, o Estádio Vidal Ramos Júnior não parecia ser o local mais apropriado.
O fato de um evento, voltado quase exclusivamente à comunidade evangélica, começar durante a madrugada e se estender até o amanhecer, com passagem de som e apresentação de banda a céu aberto, causando incômodo a moradores da região, pode ser interpretado como uma falta de consideração com o “próximo”, palavra tão presente nos ensinamentos bíblicos.
Como alguns disseram: “é preciso ser louco por Jesus para sair de madrugada na chuva e no frio de Lages”. Imagine se haveria possibilidade de sair de casa, nessas condições, aquele que é “certo” ou, simplesmente, não é louco — e nem louco por Jesus.
Às vezes, falta um pouco de sabedoria para entender que a minha fé, que é tudo para mim, para o outro não significa absolutamente nada. E qualquer forma de tentar impô-la, até mesmo através do barulho, em certa medida também é uma forma de intolerância religiosa.
A fé não precisa de grandiosidade nem de ser gritada, como numa releitura daquilo que faziam os fariseus em suas orações pelas sinagogas. E isso vale tanto para o cristão quanto para quem precisa fazer a leitura política sobre os limites do apoio institucional à forma como se organizam esses eventos.
No final, fica a lição ao marketing da prefeita: até que ponto vale apoiar um evento que pode colocá-la em conflito com alguns de seus eleitores?